Vovô Ceitok




Era uma vez, em Okinawa, um senhor chamado Ceium, tinha 3 filhos com a mulher Kame, a quem dedicava um imenso amor.
Certo dia recebem a visita de um irmão que queria emigrar para o Brasil ,mas precisava aumentar o número de membros de sua família, assim teriam melhores oportunidades de emprego naquele país.

Ceitok, filho mais velho de Seu Ceium viajaria com a família do parente. Fariam fortuna, trabalhariam de sol a sol, numa terra fértil, muito produtiva e carente de mão de obra.  No Japão, o filho mais velho tem o dever e a responsabilidade de cuidar de toda a família.
A falta de oferta de emprego no país e aquelas palavras tão cheias de promessas animaram o patriarca, que concordou com a partida do filho. Acordo fechado.

Orgulhoso Seu Ceium foi contar as boas novas a um velho amigo. O bom homem levou um choque quando soube que o Brasil era uma terra muito, muito distante e que provavelmente nunca mais veria o filho.
Palavra dada, palavra empenhada. Ceitok embarca no navio que o trouxe com a família do tio para o Brasil em agosto de 1918.

No desembarque recebe uma carta com notícias.
"Querido Filho... papai faleceu...não aguentou a tristeza ao saber que nunca mais veria seu querido  primogênito." Alguns meses depois dona Kame adoece e parte ao encontro do marido.
Ceitok recebeu as cinzas dos pais, as cultuava num templo decorado com pequenas ikebanas feitas por ele. Rituais bonitos que enchiam meus olhos infantis de encanto. O cheiro daqueles incensos aida me trazem conforto.

Trabalhadores Japoneses na Lavoura. Foto revista Made in Japan

Trabalhou, trabalhou, trabalhou. Primeiramente na lavoura, depois como tintureiro numa pequena e poética cidade do interior de São Paulo. Os ternos mais brancos e bem passados no ferro à lenha saíam daquela casa. Ternos de linho, muito elegantes.
Conheceu Maria, uma italiana bonita, cozinheira de mão cheia, com ela se casou e teve 4 filhos.

Ceitok era japonês, amava Maria italiana, teve quatro filhos brasileiros.
Gostava de moti e chá preto, mas não dispensava um bom macarrão. Parecia tão bravo, mas a lembrança que tenho é de um sorriso e uma música:

"Ookina kuri no ki no shitade

Anata to watashi

Nakayoku asobimashoo

Ookina kuri no ki no shitade"
 


"Debaixo da grande castanheira...
Você eu vamos brincar!
Debaixo da grande castanheira...
Sem brigar, em harmonia!
Debaixo da grande castanheira..."

A receita preferida de tudo isso não poderia ser mais brasileira:
 
Vatapá Paulista da Vovó Maria
 
2 peitos de frango
1/2 kilo de camarões
6 tomates
2 cebolas
1 pacote de creme de arroz (200 gramas)
1 vidro de leite de coco
4 colheres de óleo
sal
pimenta vermelha
cheiro verde
3 colheres de azeite de dendê
 
Cozinhar os peitos de frango com água suficiente que dê 3 litros de caldo. com o sal, a pimenta, 2 tomates e a cebola. Coar o caldo e reservar. Desfiar o peito. 
Refogar 1 cebola ralada no óleo, juntar os camarões, o peito e o suco de 4 tomates e um pouco de pimenta.
Prove o sal e deixe refogar um pouco.
Dissolva o creme de arroz no caldo, que já deve estar frio, junte o leite de coco e leve ao fogo mexendo bem sem parar até engrossar.
Junte o refogado e mexa bem.
Por último coloque o azeite de dendê e misture bem, sem deixar ferver.